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A BELEZA NOS SALVARÁ
O
belo, hoje em dia, está posto em dúvida por causa do poder da manipulação, da
sedução, da violência e do mal. A questão é: pode a beleza ser verdadeira, ou é
apenas (mais) uma ilusão? Ou não será que, simplesmente, a realidade é
geralmente má?
Esta questão tem-se levantado em todas as épocas: o medo de que, ao fim e ao
cabo, aquilo que nos conduz à realidade não seja a beleza das coisas, mas
exactamente o seu contrário. O que nos faz "aterrar" na realidade
será a mentira? Aquilo que é feio e vulgar é realmente o autêntico, "a
verdade autêntica"?
Esta ideia preconceituosa, pouco original e muito antiga, teve uma nova
expressão quando se diz que depois de Auschwitz já não é possível escrever
poesia, nem falar da bondade de Deus.
A questão seria: onde estava Deus enquanto as câmaras de gás estavam a
funcionar?
Esta objecção, que pretende ser racional, esquece que antes de Auschwitz todas
as outras atrocidades da história já tinham sido suficientemente fortes para
que se entenda que a beleza não pode ser percebida como mera harmonia.
A beleza reduzida ao esteticismo foge da seriedade da questão sobre Deus, sobre
a verdade e sobre o belo.
Para os gregos, a beleza serena de Apolo era suficientemente divina, mas não
responde áquilo que é um desejo, fortíssimo e permanente, dos seres humanos:
existe realmente uma beleza que é real, ou é um mero refúgio para o feio
quotidiano (e o "feio" seria o "verdadeiro", o real).
O Salmo 44, referindo-se a Cristo, diz "és o mais belo dos homens, dos
teus lábios flui a graça". Mas Isaías (Is, 53,2) mostra-nos que "não
tinha graça nem beleza para atrair nossos olhares, e o seu aspecto não podia
seduzir-nos", falando do Cristo sofredor.
Na Paixão de Cristo, a estética grega sossobra. Mas se a beleza está de facto
em contacto com o divino, então o que vemos na Paixão não é a negação da
beleza, mas uma superação profunda e um novo realismo (um novo Humano, uma nova
Criação).
Aquele que é a própria Beleza, deixou que o esbofeteassem e lhe cuspissem na
cara. A Beleza permitiu-se ser objecto de troça, deixou que a coroassem com
espinhos. É neste rosto desfigurado, "não há n'Ele forma humana", que
se manifesta a verdadeira e definitiva beleza. A beleza do amor que avança
"até ao fim", até à consumação. É nisto que se mostra mais forte que
a mentira e a violência.
Só quem experimentou esta beleza sabe que a verdade, e não a falsidade, é a
última instância do mundo real. Não é a mentira que constitui a realidade: o
que é verdadeiro é precisamente a Verdade.
O que nos diz o Crucificado é que podemos confiar na realidade, na realidade da
Cruz em que não há qualquer risco em perder a beleza externa porque, deste
modo, se afirma a verdade definitiva, a verdade da beleza.
(Cfr. Ratzinger, J., Caminhos de Jesus Cristo, Ed. Cristiandad)
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