Paróquia de S. Cosme - Gondomar :: A BELEZA NOS SALVARÁ - José Ratzinger
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 A BELEZA NOS SALVARÁ

O belo, hoje em dia, está posto em dúvida por causa do poder da manipulação, da sedução, da violência e do mal. A questão é: pode a beleza ser verdadeira, ou é apenas (mais) uma ilusão? Ou não será que, simplesmente, a realidade é geralmente má?

Esta questão tem-se levantado em todas as épocas: o medo de que, ao fim e ao cabo, aquilo que nos conduz à realidade não seja a beleza das coisas, mas exactamente o seu contrário. O que nos faz "aterrar" na realidade será a mentira? Aquilo que é feio e vulgar é realmente o autêntico, "a verdade autêntica"?


Esta ideia preconceituosa, pouco original e muito antiga, teve uma nova expressão quando se diz que depois de Auschwitz já não é possível escrever poesia, nem falar da bondade de Deus.


A questão seria: onde estava Deus enquanto as câmaras de gás estavam a funcionar?

Esta objecção, que pretende ser racional, esquece que antes de Auschwitz todas as outras atrocidades da história já tinham sido suficientemente fortes para que se entenda que a beleza não pode ser percebida como mera harmonia.


A beleza reduzida ao esteticismo foge da seriedade da questão sobre Deus, sobre a verdade e sobre o belo.


Para os gregos, a beleza serena de Apolo era suficientemente divina, mas não responde áquilo que é um desejo, fortíssimo e permanente, dos seres humanos: existe realmente uma beleza que é real, ou é um mero refúgio para o feio quotidiano (e o "feio" seria o "verdadeiro", o real).


O Salmo 44, referindo-se a Cristo, diz "és o mais belo dos homens, dos teus lábios flui a graça". Mas Isaías (Is, 53,2) mostra-nos que "não tinha graça nem beleza para atrair nossos olhares, e o seu aspecto não podia seduzir-nos", falando do Cristo sofredor.

Na Paixão de Cristo, a estética grega sossobra. Mas se a beleza está de facto em contacto com o divino, então o que vemos na Paixão não é a negação da beleza, mas uma superação profunda e um novo realismo (um novo Humano, uma nova Criação).

Aquele que é a própria Beleza, deixou que o esbofeteassem e lhe cuspissem na cara. A Beleza permitiu-se ser objecto de troça, deixou que a coroassem com espinhos. É neste rosto desfigurado, "não há n'Ele forma humana", que se manifesta a verdadeira e definitiva beleza. A beleza do amor que avança "até ao fim", até à consumação. É nisto que se mostra mais forte que a mentira e a violência.


Só quem experimentou esta beleza sabe que a verdade, e não a falsidade, é a última instância do mundo real. Não é a mentira que constitui a realidade: o que é verdadeiro é precisamente a Verdade.


O que nos diz o Crucificado é que podemos confiar na realidade, na realidade da Cruz em que não há qualquer risco em perder a beleza externa porque, deste modo, se afirma a verdade definitiva, a verdade da beleza.


(Cfr. Ratzinger, J., Caminhos de Jesus Cristo, Ed. Cristiandad)

 

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