| Um Gondomarense com 101 Anos |
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UM GONDOMARENSE COM 101 ANOS
Serafim Hilário Ferreira de Almeida, nasceu em 29/10/1908, na Casa do Paço, no sítio da Zorra em Ramalde. Agora anseia para que chegue o mês de Outubro, a fim de que possa celebrar os seus 101 anos de idade. A curiosidade faz-lhe perguntar quem sou. Quando lhe digo que sou redactor do jornal da Paróquia, conclui que é bom respeitar a Igreja, porque é respeitar o nosso futuro. Que ia sempre à missa dominical e levava toda a familia consigo. Herdara a fé de seus pais, que eram muito religiosos. Mas não tem pressa nenhuma para chegar ao Céu, diz-me risonho de imediato. Que tem muitos amigos por cá, e custa muito deixá-los, uma vez que para onde irá, não os poderá levar consigo. Tenciona viver ainda muitos anos, continua. Gosta da sua vida, pois foi aquela que escolheu, mas principalmente da que tem depois de reformado. Já foi mineiro em S. Pedro da Cova, ourives, e sabe-se lá que mais, nas voltas que a vida dá. Uma vida dura de trabalho, passou maus bocados. É a sua filha Rosa Zélia que dele cuida, essa mesma que me abre a porta da casa, quando o seu irmão Abílio me encaminha, que explica tudo o que quero saber. Conta que ainda caminha bem, embora devagar. Quando quer, desce as escadas dá uma volta pelo quintal e regressa. Mas o seu lugar preferido é este onde está, entre a janela e a mesa. Quando quer espreita pela janela e vê os carros a passar, ou vira-se para a mesa, onde se entretêm com o seu passatempo preferido: as palavras cruzadas. É seco de carnes, estatura mediana, de olhos afastados, cristalinos e límpidos, que pousa curioso em quem lhe fala, ágil de raciocínio, perfeitamente lúcido, escreve ainda poemas, come de tudo, desde que não seja duro atalha, e senhor de um espírito alegre, e de um corpo que não o tem traído com doenças. Se não fosse a dureza do ouvido que o trai, dir-se-ia que o tempo tinha passado de levezinho pelo senhor Serafim. Diz-me que se casou com a Maria Rosa Ferreira, do lugar da Cavada, em S. Pedro da Cova, do qual teve oito filhos, seis vivos ainda. Foi na Cavada de Tardariz, numa roda de moços e moças, que os seus olhares se cruzaram. Ficou logo com uma rapariga de encantar, resolvida a viver consigo. Ainda hoje recorda a esposa, amiga e companheira de grande parte da sua vida, que já partiu para o lugar onde ambiciona ir um dia também. Pergunto-lhe então se sabe qual a causa da sua longevidade. Responde-me que o seu segredo é ter sempre a boca fechada. Apercebendo-se do meu olhar admirado, reforça a sua afirmação: sim, a boca fechada. Passa à explicação: a podridão, a porcaria, os estrumes, as doenças andam todos por aí, pelo ar. Quem tiver a boca aberta os micróbios entram, e fica-se doente. Tenha a boca sempre fechada, mesmo a dormir, aconselha-me. Esse é o meu segredo. Todos nos rimos, a boa disposição está instalada naquela casa. Seu filho Abílio explica-me que seu pai está bem de saúde, nada lhe dói. Come regradamente e a horas. Exercita o seu cérebro diariamente escrevendo, fazendo poemas, e continuamente palavras cruzadas. Quando um dia destes sua irmã Rosa Zélia, o preparou para ficar sozinho, pois tinha que ir a uma consulta no Centro de Saúde, obteve logo o seu protesto: caramba o que se passa contigo que passas a vida nos médicos? Não admira pois a seu amor à vida. Deixo o senhor Serafim em paz na companhia dos seus filhos, e na de Deus, a quem agradece a protecção nas voltas que a vida lhe deu, e com a memória da sua longa familia ali exposta, nas muitas fotografias pousadas no móvel da sua sala. Na despedida torna a lembrar-me o seu segredo, para que possa também ter uma longa e saudável vida: olhe que tenha a boca sempre fechada. Gondomar, 2009/08/25 João Maria Neves Pinto, para o Jornal paroquial de Gondomar/S. Cosme, Caminhando
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