| ETAPAS DE LEITURA DA PALAVRA DE DEUS-Frei Vítor Arantes, OFM |
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ETAPAS DA LEITURA DA PALAVRA DE DEUS Introdução. Para assinalar o 40º aniversário da Constituição Dogmática «Divina Revelação» (DV), realizou-se em Roma, de * A primeira é dirigida aos clérigos: «E necessário, diz, que todos os clérigos se mantenham em contacto íntimo com as Escrituras». A expressão latina («in Scriptura haerere») significa «estar dentro, habitar nas Escrituras», familiarizar-se com a Palavra de Deus, mediante a «leitura assídua»(DV, 25). * A segunda está orientada aos fieis em geral: « O Sagrado Concílio exorta com ardor e insistência todos os fieis a que aprendam a «sublime ciência de Jesus Cristo com a leitura frequente da Sagrada Escritura».(DV, 25). A terceira, dirigida a todos, insiste na dimensão orante da leitura da Palavra: «Lembrem-se, porém, que a leitura da Sagrada Escritura deve ser acompanhada de oração, para que seja possível o diálogo entre Deus e o homem»… Compreende-se, por isso, que a Federação Bíblica Internacional tenha dirigido 1991 um apelo ao Parlamento Europeu de Strasbourg para incluir a Bíblia entre os livros escolares.. Felizmente, a Bíblia deixou de ser livro de Biblioteca; lentamente, vai-se tornando o verdadeiro «catecismo dos fieis». Nas dioceses e nas paróquias assistimos a um despertar de atenção à Palavra de Deus, que nos faz sonhar com uma verdadeira Primavera de vida cristã, à luz do Evangelho. A diocese de Setúbal acaba de lançar o projecto de três anos, orientado a despertar nos cristãos o amor pela Palavra de Deus. Com tal projecto pretende-se: * habituar os cristãos a confrontar com a Palavra de Deus a sua vida; aprender a procurar a presença redentora de J. Cristo na Palavra das Sagradas Escrituras; propôr a todos os cristãos uma leitura orante da Sagrada Escritura; preparar cada cristão para a leitura assídua, inteligente, orante e obediente da Palavra de Deus (Texto da Internet. 3=.08.2.005). Vale a pena recordar também a admoestação de Tiago Alberione, fundador dos Paulistas: «A Escritura é a carta que o Pai eterno nos enviou… Não nos arrisquemos a aparecer no tribunal de Deus sem termos lido a carta do Pai celeste, porque nos dirá: «não respeitaste nem amaste o que te escrevi»!
Leitura bíblica na Igreja. Ficam assim claros os objectivo da «lectio divina»: fazer da leitura individual ou comunitária da Bíblia uma «leitura crente e orante», verdadeiro encontro com o Senhor que nos fala e saborear a alegria da Sua presença, a fim de nos tornarmos fermentos de vida evangélica no meio do mundo.. Trata-se dum método, dum itinerário, que visa tornar a leitura sagrada caminho de oração e união com Deus. Guido II, Prior da Grande Cartuxa (1173-1180), descrevia este caminho de maneira poética: « Procurai, lendo, e encontrareis, meditando; chamai, orando e abrir-se-vos-á pela contemplação». E, mediante bela metáfora, descreve as etapas da «Lectio Divina»: « A leitura ( da Bíblia) leva à boca o alimento sólido; a meditação corta-o e mastiga-o; a oração saboreia-o, a contemplação é doçura que alegra e recria». 1. Primeiro etapa: A Leitura/Escuta da Palavra. Ao indicarmos as diferentes etapas da «lectio divina» não afirmamos que se verifiquem todas, sempre que lemos ou escutamos a Palavra de Deus; nem tão pouco, que se tenha consciência da cada uma Comecemos pela primeira etapa da «lectio divina»: a Leitura-Escuta da Palavra. A leitura da Palavra de Deus, para ser frutuosa, exige condições, atitudes prévias, como: recolhimento, silêncio, concentração. Não se pode ouvir Deus no meio do ruido. ( O bem não faz barulho e o barulho não faz bem). Para nos colocarmos em condição de ouvir falar o Senhor, necessitamos de silêncio interior ( Não se pode escutar a Palavra e discutir ao mesmo tempo o Futebol…), de «sossegar a casa», como dizia S. João da Cruz. Sossegada a casa interior, começamos a leitura. Convém que seja uma leitura atenta, mastigada, pausada, de modo a captar o sentido das palavras. Sem isso, dificilmente poderá ressoar no santuário do nosso coração, a voz amorosa de Deus, que convida à conversão. A Deus falamos quando rezamos e a Deus ouvimos quando lemos suas palavras. Evite-se, portanto, a leitura apressada, não reflectida, superficial. Adoptemos uma atitude interior de escuta e de clima orante. «Aprende a conhecer a Deus nas palavras de Deus», dizia S. Gregório Magno. Façamos nossa a atitude que Deus recomenda a Ezequiel para que escute « suas palavras com os ouvidos e as guarde no coração». .Deve-se mesmo procurar o prazer ou fruição da leitura como quem recolhe as flores dum jardim, saboreando palavra a palavra. A leitura santa alimenta a fé, tal como o Corpo de Cristo. Para uma leitura aprofundada do texto bíblico convém tentar responder a estas perguntas: - O que me diz o texto? De que assunto trata? Quais são os personagens e como reagem? Que termos se repetem mais vezes? Que testemunho de fé nos oferece o texto? Contribui também para uma boa leitura o tomar apontamentos, memorizar o texto, saborear as palavras, etc. 2. Meditação Após a leitura, vem a hora da reflexão, a aplicação da mensagem à vida. É a meditação. A meditação, segundo Santa Teresa, consiste em «discorrer muito com o entendimento».Por meditação entendemos o esforço indispensável para descortinar as verdades contidas no texto proclamado. A meditação tem como objectivo responder à pergunta: «que me quer Deus dizer»? Consiste, portanto, em procurar a verdade de Deus escondida no texto, à imagem de Nossa Senhora, que «guardava todas as coisas no coração». Guido, o Cartuxo, descreve assim as duas primeiras etapas da «lectio divina»: a «leitura busca; a meditação encontra. Entra pelo caminho aberto através da leitura e encontras o que esta tinha procurado». Os Santos Padres explicam que a meditação da Palavra de Deus ajuda a encontrar nela « um alimento doce e nutritivo», como a abelha que, depois de ter sugado as flores, fecha-se no seu favo e faz o mel de que todos beneficiam, pobres e ricos, nobres e humildes». Pela meditação da Palavra, o cristão deixa-se penetrar pela força do amor de Deus. O Livro de Josué indica como se deve fazer meditação com a Palavra de Deus: « Não se afaste dos teus lábios o livro deste Lei; medita-o dia e noite; assim procurarás agir em tudo conforme nele está escrito e terás felicidade nas tuas empresas» (Jos. 1,8); S. Bernardo define a meditação com esta metáfora gráfica:: «Quando rumino docemente a Palavra de Deus, inflamam-se minhas entranhas e fico saciado no meu íntimo». A meditação da Palavra desperta o gosto pela «compreensão das Escrituras e dos mistérios de Deus» . Santo Agostinho diz o mesmo de modo original: « Quem medita dia e noite na Palavra do Senhor, é como se ruminasse e encontrasse deleite no sabor dessa Palavra divina». Na meditação adquirimos forças para assumir as responsabilidades da vida quotidiana. Por isso, as escolas de espiritualidade tanto recomendavam a meditação para todos os que queiram progredir na experiência de Deus!. 3. Oração: A oração constitui a terceira etapa ou degrau da «lectio divina». Depois da leitura e meditação «ruminada», o leitor sobe a outro patamar, ao patamar da oração. De acordo com a etimologia , orar é estar boca a boca com Deus., um dialogo intimo e pessoal com o Senhor. O leitor e ouvinte da Palavra, torna-se-a necessariamente orante. Orar, rezar, não é tanto o papaguear de Pais-nossos e Avé Marias, o desfiar mecânico de fórmulas, quanto o iluminar de luz interior os divertículos do coração. A oração passa por diversos graus, desde a simples oração vocal até à oração contemplativa,. Mas constitui sempre dom de Deus. Ela é gratuita, não se mede por palavras, mas por atitudes que brotam de dentro de nós, quando conscientes da intimidade com Deus. Quem ouve e medita a Palavra do Senhor, não pode deixar de agradecer ao Deus que nos fala. Da meditação brota vontade de orar. Santo Agostinho recorre a um belíssimo trocadilho:«quando lês, é Deus que te fala; quando oras, falas tu a Deus». A oração surge do encontro do «coração» do homem com o «coração» de Deus, por mediação da sua Palavra».. A oração situa-se no centro da resposta do homem à Palavra do Senhor. Pela oração entra na experiência Deus Pai (ABBA). O cristão, como Maria, ora a Deus com a Palavra de Deus». A oração pode e deve ser pessoal e comunitária, orgânica e estruturada. Todavia, nunca deixará der ser empenhativa da toda a pessoa, como os discípulos de Emaús, que, depois de escutarem o Senhor, rezaram: «Fica connosco»! O orante torna-se sempre mendigo do sentido da vida! 4. Contemplação. Aparentemente, oração e contemplação, seriam uma mesma coisa. Situada na linha da oração, a contemplação indica todavia etapa diferente. Está num grau mais elevado. Exprime a meta da via espiritual, em que a criatura se une ao Criador. É o termo da escalada do monte onde Deus habita, o Sinai e o Tabor do encontro pessoal com o Senhor. É a «alegria de viver só para Deus», na expressão de Santo Isidoro. Quando alguém «conhece e compreende, quer e anela, saboreia somente a Deus», experimenta a contemplação. Contemplar não significa tanto um novo olhar acerca do mundo, mas consiste em nos sentirmos olhados e amados por Deus1. Para Guido, o Cartuxo, a oração tende à contemplação: «Batei e abrir-se-vos-á pela contemplação». Quanto mais pura e afectiva for a oração, mais cedo desembocará na contemplação. Neste mundo, para a alma crente, a contemplação é a mais sublime dádiva do amor divino, a felicidade do amante humano, porque introduz o homem no mistério do amor de Deus, a expressão suprema da felicidade do homem 5. Partilha da Palavra Chamámos partilha ao momento ou etapa da «lectio divina». Em que consiste? É um modo de conferir com os outros as etapas do nosso percurso espiritual.Diziam os rabinos que a Bíblia tem cem rostos!. De facto, a partir do mesmo texto, o Espírito Santo pode sugerir a cada um diferentes experiências de fé. Na partilha dialogamos e partilhamos as experiências, saídas da meditação da mesma Palavra do Senhor. A Bíblia não pode considerar-se propriedade exclusiva de ninguém. Pertence ao Povo de Deus, à Igreja, e só em comunidade de fé sua leitura terá pleno significado. Para tal muito pode contribuir a partilha. Na Liturgia é toda a comunidade que escuta, normalmente, sem partilha. A leitura em grupo e nas assembleias possibilita a partilha entre os membros das diferentes experiências de fé. A partilha da Palavra, contribui, além disso, para a criação dum sentido comunitário da fé e para intensificar a comunhão na diversidade, 6. Compromisso Para os antigos a «lectio divina» culminava na contemplação do mistério de Deus, A meta da vida cristã consistia em viver angelicamente na presença de Deus!. A «lectio divina», processo cristão da leitura divina e escuta da Palavra, não pode fechar-se na interioridade. Deve levar à conversão, através do testemunho de vidas comprometidas ao serviço de Deus e dos outros (Lc. 10,28). A Palavra de Deus conduz «a sabedoria do coração», isto é, a uma vida com Deus e em Deus, que implica compromisso sério pela edificação do Seu Reino e pela transformação do mundo. O «encontro com Deus, segundo S. Bento, leva o cristão ao encontro dos irmãos e faz dele um «irmão útil».. suscitando novos profetas, possuidos de dinamismo evangelizador. A contemplação torna-se fermento de transformação humana, social, política. Efectivamente, percorridos os caminhos do Espírito, há que passar à banalidade do quotidiano, descer da montanha divina à planície humana, vestir o fato-macaco do trabalho na «oficina» do nosso mundo. O cristão deve, portanto, abundar em boas obras. Assim demonstrará que o compromisso da «Lectio divina» corresponde ao compromisso com a eficácia da Palavra de Deus (Actos 2, 37).A Palavra de Deus lida e partilhada, a sós ou em grupo, força a tomar posição, perante Deus e perante o mundo criado. Disso nos advertia Santo Agostinho: «Prestai atenção, irmãos, porque nesta passagem bíblica se trata precisamente de vós. O contacto com a palavra de Deus, que fecundou a terra do coração com a chuva fecundante da Palavra torna o cristão homem rico em boas obras (Is. 55,11). A acção passa a ser testemunho, compromisso, vida vivida, partilhada, e é isso que faz a força da palavra de Deus lida, meditada, rezada, contemplada. Pelos obras externas os cristãos começam a exteriorizar naturalmente aquilo de que estão interiormente possuidos. Numa hermenêutica existencial, não se pode ler a Bíblia apenas como documento histórico, mas como Palavra que Deus me dirige a mim, aqui e agora., forçando-me a tomar posição, diante dEle e do mundo criado. Termino com uma nota bíblica, que contém certo humor para os judeus. Um judeu estudante do Talmud dizia ao rabino, seu Mestre::«Rabbi, já não sou ignorante: já entrei muitas vezes dentro do Talmud». Ao que respondeu o rabino: «Mas quantas vezes deixaste tu entrar o Talmud dentro de ti»? Aí está. O importante não está em entrar muitas vezes na Bíblia, lendo-a e meditando-a. Mais importante será conseguir que a Bíblia entre dentro de nós, como recomenda a Dei Verbum (11 e 21): «É tão grande o poder e a força da Palavra de Deus, que constitui sustento e o dinamismo da Igreja, firmeza de fé para os seus filhos, alimento da alma, fonte límpida e perene de vida espiritual». (DV 11 e 21). Ou lembrar a recomendação da Paulo:«O Evangelho é a força de Deus para salvação de todos os que crêem» (Rm 1,16). Com estas disposições, este caminho da «lectio divina» conseguiremos que a Palavra de Deus se torne « fogo purificador» (Is.6,6-7); chuva fecunda que faz efeito (Is. 55,10-11);«gozo e alegria do coração» (Jer. 15, 16); «força sedutora e fogo ardente» (Jer. 20,7-9); «alimento» (Mt.4,4). É esta também a recomendação de João Paulo II: «Tomemos este Livro nas nossas mãos! Recebâmo-Lo do Senhor, que continuamente no-lo oferece a través da sua Igreja (cf. Ap. 10,8). Comâmo-lo (cf. Ap.10,9), para que se torne vida da nossa vida. Saboreemo-lo profundamente; embora sem nos poupar canseiras, conseguirá dar-nos alegria porque é doce como o mel (cf.Ap. 10, 9-10). (A Igreja na Europa (p.78) Frei Vítor Arantes, OFM |