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FÁTIMA E A MODERNIDADE -PROFECIA E ESCATOLOGIA - A. Santos Marto Imprimir EMail

 

FÁTIMA E A MODERNIDADE  -  PROFECIA E ESCATOLOGIA

                                                                         
António dos Santos Marto

 

«O raio e o trovão precisam de tempo, a luz dos astros precisa de tempo, as acções precisam de tempo para poderem ser vistas e ouvidas»(Nietzsche)


Esta frase de Nietzsche, apesar de se referir a um contexto diferente, pode bem aplicar-se à mensagem das aparições de Nossa Senhora em Fátima em 1917.

Só distanciando-nos no tempo, no início de um novo século, somos capazes de captar toda a sua grandeza, profundidade e relevância.


Um historiador inglês, G.J. Hobsbawn, define o século XX como "século breve": fá-lo começar em 1914 com a primeira guerra mundial e acabar em 1989 com a queda do muro de Berlim. Precisamente este período de tempo é abrangido de modo especial na mensagem de Fátima.


As aparições tiram o seu significado particular do momento histórico, social, político, cultural e religioso ao qual dirigem a sua interpelação e que procuram iluminar com a sua mensagem. Segundo a doutrina de S. João da Cruz as aparições são o invólucro da mensagem. A primazia cabe à mensagem de amor. A Igreja considera-as «revelações privadas» que não podem ser comparadas à Revelação consignada na Sagrada Escritura. O seu objectivo não é fundamentar a fé mas servi-la. Não acrescentam nada à única revelação, mas podem ser um humilde apelo. Constituem sinais sensíveis nos quais Deus se comunica segundo a capacidade daquele que o recebe. O seu papel pode aproximar-se ao dos ícones que, segundo a teologia oriental, são uma «verdadeira objectivação, inspirada pelo Espírito Santo [...] geradora e portadora de presença». Elas pertencem à ordem do carisma, isto é, são um dom de Deus a um membro do corpo de Cristo para bem de todo o corpo. Como todos os carismas de carácter excepcional, não devem ser procuradas mas acolhidas, em acção de graças, com discernimento e prudência.


Na expressão de K. Rahner, uma revelação privada não representa uma inovação, isto é, uma nova interpretação das realidades da fé; é antes a revelação de um imperativo evangélico numa determinada situação histórica da Igreja e do mundo, a realizar com urgência num preciso momento requerido pela própria situação histórica e de acordo com os princípios gerais da revelação oficial e da fé eclesial.


Por isso a revelação privada é uma actualização epocal, uma aplicação histórica da revelação fundadora numa determinada época, de modo a inseri-la nas consciências e na cultura como graça, promessa, existência e juízo, de modo a que os ouvintes e os destinatários se confrontem com um chamamento directo de Deus que convida à obediência da fé.

 
As aparições são um sinal de Deus para a nossa geração. E Maria aparece como a serva do Senhor, disponível ao serviço da Igreja no mundo. As aparições querem ainda preparar a Igreja para o futuro, por vezes com tons apocalípticos.

Penso ser necessário fazer este preâmbulo à maneira de introdução porque, relativamente às aparições, constata-se com frequência uma curiosidade por vezes doentia que corre o risco de se fixar sobre detalhes periféricos sem captar o fundamental.


As aparições e a consequente revelação não podem fazer esquecer a dramática situação histórica na qual a comunidade cristã está inserida. Por isso só na medida em que as aparições se colocam numa relação com a  história quotidiana e com as grandes provocações que partem da humanidade, se pode pensar estarmos perante uma mensagem que é dada para provocar a fé, que se tornou tépida e indiferente.


Uma reflexão teológica a este propósito não poderá dispensar uma análise atenta ao contexto socio cultural em que as aparições acontecem, por exemplo, as condições peculiares que a Igreja vive num determinado momento.

   

1. No horizonte da Modernidade


É bem evidente como a mensagem de Fátima se refere à nova era dos tempos modernos com particular incidência na época dos dois grandes conflitos que marcam a história do século XX, com todo o contexto em que estes se inserem e com tudo aquilo de que são expressão.


A primeira e a segunda guerra mundiais constituem como que um prisma do mal neste século, onde de vários ângulos se reflectem e se podem observar as principais facetas do mal e os seus efeitos perversos:


- a novidade trágica da forma política totalitária, nas versões do estalinismo e do nazismo, típica do século XX;


- o recurso à mentira sistemática para fabricar uma verdade e (re) escrever a história;


- um programa de negação de Deus e da Sua expulsão da vida pública e das próprias consciências através um ateísmo e um laicismo militantes;


- a aniquilação e a morte do ser humano e o desprezo total da dignidade da pessoa, na expressividade numérica de dezenas de milhões de vítimas, em nome da pureza radical da ideologia, da revolução ou da raça, elevadas à categoria de novas divindades;


- a novidade daquela que viria a ser chamada a «guerra total» que, infringindo os códigos tradicionalmente aceites, dava via livre à liquidação dos civis e inocentes, usando todos os instrumentos científico-técnicos mais modernos. Isto representa o levar até ao extremo o poder arbitrário que não conhece limites, qualquer limite.


- o fenómeno colectivo de ódio e de violência que se apoderou de pessoas e povos.


Numa leitura teológica dos sinais dos tempos, a guerra mundial e a guerra total representam (isto é, tornam presente) um concentrado do mal, um símbolo real da mundialização do pecado experimentada pela primeira vez na sua monstruosidade, no seu horror e terror a nível planetário. Põem em evidência tanto as formas do mal organizado do qual está tragicamente cheio o nosso século, como a aceitação da normalidade e da banalidade do mal, agora racionalmente justificado e legitimado, cientifica e tecnicamente programado e executado.


À distância de tempo aparecem-nos hoje com mais clareza a metamorfose, a rotura e a degeneração da modernidade e dos seus êxitos potencialmente destruidores.


A novidade dos tempos modernos não consiste propriamente no facto de o homem ter decidido usar livre e publicamente a razão, segundo o lema de Kant. Este lema lança as suas raízes no cristianismo, na convicção de que o homem é criado à imagem de Deus, capaz de conhecimento criador.

O que marca a rotura epocal é o facto de a modernidade se apresentar como um projecto ambicioso de salvação do homem pelo homem, que teve a sua expressão teórica extrema no século XIX com «os mestres da suspeita» e a sua mensagem, de que foi herdeiro maior o marxismo: é preciso que Deus morra para que o homem viva. O século XIX deixou na consciência geral, como herança, esta chaga aberta que entrou pelo século XX: o rancor contra Deus como inimigo do homem, que veio a redundar na própria morte do homem.


Sintetizando com palavras de João Paulo II: «Esta mensagem (isto é, a mensagem de Fátima) destina-se de modo particular aos homens do nosso século, marcado pelas guerras, pelo ódio, pela violação dos direitos fundamentais do homem, pelo enorme sofrimento de homens e nações e por fim, pela luta contra Deus até à negação da sua existência.»

A mensagem de Fátima contempla com lucidez e amargura esta tumultuosa e dramática vicissitude histórica. Depois das Escrituras é talvez a denúncia mais forte e impressionante do pecado do mundo que convida toda a Igreja e o mundo a um exame de consciência sério. Só quem tem o sentido forte da dignidade do homem perante Deus, do seu destino eterno, pode compreender quão grande é a tragédia do pecado e como a perda do sentido do pecado é, no mais profundo, a perda do sentido de tudo aquilo que é verdadeiramente humano. «Com a eliminação de Deus das consciências, é o próprio homem que entra em perigo. No final do século está em jogo e risco não só a existência de Deus mas também a dignidade do homem.»


Perante esta situação da humanidade ferida, a mensagem de Fátima é porta-voz do clamor das vítimas e torna-se um convite a ler a história a partir das vítimas, a deter-se perante o mistério do homem diante do mistério de Deus. Repropõe de modo veemente a antiga e sempre actual interpelação do Génesis:

«Adão, onde estás?» (3,9) - isto é: onde está o homem? Onde está o homem no universo concentracionário de Auschwitz ou do Gulag soviético?

«Como se pode acreditar no homem ou inclusive como se pode crer na humanidade – que palavra sonora a este respeito! - se em Auschwitz se teve de experimentar aquilo de que o homem é terrivelmente capaz?» O cinismo dos opressores modernos não é porventura expressão da impiedade do mundo moderno e do seu horripilante desprezo e abandono de Deus? Quem salvará o homem do próprio homem?

 



2. Nuvem de misericórdia


A singular coincidência temporal destas aparições com horas históricas de extrema gravidade (a guerra, o novo credo do Bolchevismo e, por referência posterior, o novo paganismo nazi) permite-nos compreendê-las tanto em chave psicanalítica de preadmoestação fatídica como em chave histórico-salvífica de profecia, ou seja de irrupção da Palavra do Alto, Palavra da Graça por vias não institucionais, isto é por via carismática.


A sugestiva expressão de S. Tiago de Sarug (falecido em 521) referida a Maria como «nuvem de misericórdia que carrega as angústias e esperanças de todo o mundo», traduz bem o sentido das aparições de Fátima e o cerne da sua mensagem.


Em primeiro lugar, a aparição da Virgem Mãe com a sua mensagem é percebida como uma intervenção do Altíssimo para manifestar e assegurar aos fiéis a não impassibilidade do coração de Deus, a sua vulnerabilidade, a sua dor e o seu grito de amor perante a devastação do pecado destruidor e o sofrimento do mundo e da Igreja: o Deus compassivo, o Deus para nós.

As arquitecturas da teologia clássica distanciavam demasiado Deus, metafisicamente, do humano; levavam os crentes a pensar num Deus não muito diferente do Destino (Fado) dos pagãos, soberano, surdo, mudo e distante.
Uma falsa ideia de Deus que não ia muito para além dos limites de um certo deísmo: Deus motor imóvel, causa primeira, «monarca celeste e patriarca do Universo» (Moltmann), apático, impassível - « um Deus reduzido a um postulado abstracto da razão teórica ou prática, revestido eventualmente de um manto cristão». Assim se ocultava o rosto genuíno do Deus de Jesus Cristo.


Na mensagem de Fátima, a desgraça e o pecado não deixam Deus indiferente, e Raquel continua a chorar os seus filhos (cf. Mt 2, 18). Por isso, do princípio ao fim, o cerne da mensagem está no convite premente a reconduzir para o centro da vida cristã e do mundo a adoração de Deus, Senhor da História, o reconhecimento da sua primazia, a adesão à sua vontade salvífica, o convite a acender o desejo de amor a Deus e estimular à prática do amor reparador. Tudo o resto tem aqui o seu centro de unidade e de irradiação.


Em segundo lugar, e numa certa ligação com o aspecto anterior, reflecte-se na mensagem um paradoxo que é uma constante da História da salvação: a saber, o extremo e misterioso contraste entre a "grande" história das nações e dos seus conflitos, a história dos grandes e dos poderosos com a sua própria cronologia e geografia do poder, e a "pequena" história ignorada dos humildes e dos pequenos, dos pobres, privados do saber e do poder, na periferia do mundo. E daqui, da periferia, são chamados a intervir na história a favor da paz, com outra força, outro poder, outros meios,
aparentemente inúteis e ineficazes aos olhos humanos: o poder da oração do justo dita com fervor, a perseverança na oração para obter o dom da paz através da adoração, da devoção reparadora, da conversão e do próprio sacrifício segundo os costumes piedosos da época, estão em consonância
perfeita com o dado revelado na Escritura. «Os muros de Jericó caíram ao som das trombetas da oração» afirmava La Pira em 1959, no regresso da primeira viagem que um político ocidental efectuava à Rússia, depois da guerra.


Nesta perspectiva, a mensagem de Nossa Senhora é um apelo para nos abrirmos a uma outra dimensão da história, alimentada por outra Presença, sustentada por outra Força, conduzida por outra Luz, orientada para outra Meta, já agora misteriosa e silenciosamente presentes e operantes na cadeia das gerações que guardam a Promessa (as Promessas) do Senhor e a transmitem (as transmitem) de geração em geração.

O próprio filão de espiritualidade mariana que integra a mensagem de Nossa Senhora, encontra em Maria um pólo luminoso na contemplação do mistério da benevolência divina e da sua condescendência. A devoção ao Coração Imaculado de Maria introduz-nos na «humanidade e benignidade do Nosso Deus e Senhor Jesus Cristo». Chama-nos à fé simples e pronta «Daquela que acreditou no cumprimento das palavras do Senhor» (Lc 1,45). Ela acompanha não só o drama do «mistério da iniquidade» no mundo mas também o mistério da gestação dos crentes e do risco de incredulidade e de apostasia.

Nestes dois aspectos centrais acabados de referir (a não impassibilidade de Deus e a intervenção dos humildes na história por meio da adoração e intercessão) julgamos poder encontrar o eixo que permite coordenar organicamente os vários elementos típicos da mensagem de Fátima:

- o elemento sacrificial, centrado no sacrifício eucarístico e na oferta de si mesmo com Cristo;

- o elemento escatológico (visão do inferno e conversão dos pecadores) de uma urgência impressionante - à primeira vista quase desumana -   a sublinhar o forte relevo que assumem as desgraças que pendem sobre a humanidade e sobre a Igreja, por causa do pecado. Traduz, à sua  maneira, a advertência evangélica: «se não vos converterdes, perecereis todos do mesmo modo» (Lc 13,3).

- o elemento mariano da devoção e da consagração ao Coração Imaculado, como caminho para a adoração profunda do mistério de Deus, expresso no sim imaculado de Maria ao Seu desígnio de Amor, e assim também para alcançar o Dom da paz;

- o elemento eclesial, como comunhão solidária de toda a Igreja na intercessão pela paz no mundo e pela própria Igreja perseguida;

- o elemento pedagógico-religioso, concretizado em exercícios de piedade (orações, devoções, sacrifícios) de matriz popular (como caminho espiritual simples e acessível a todo o povo) segundo os costumes do tempo e num registo de linguagem psicológica e afectiva (reparar, consolar, desagravar...).




3. Num horizonte de fé cristológica e trinitária

 

Por fim, toda a mensagem de Fátima é-nos apresentada num horizonte de fé cristológica e trinitária. Aqui encontramos o contexto próximo em que está inserida a dimensão eucarística.


A mensagem de Fátima na sua totalidade consta de três ciclos: o ciclo angélico (aparições do anjo - 1916), o ciclo mariano (aparições de Nossa Senhora de 13 de Maio a 13 de Outubro de 1917) e o ciclo do Coração de Maria (aparições de Pontevedra em 1925-1926 e de Tuy - 1919).

A meu ver, as aparições do Anjo e a última aparição em Tuy constituem, respectivamente, o pórtico de entrada e a chave de abóbada, à luz dos quais deve ser enquadrada e perspectivada toda a mensagem. É nelas que aparece vincadamente o mistério eucarístico em relação íntima com o mistério trinitário.


Na primeira aparição, o Anjo comunica e suscita nos videntes o espírito de adoração reparadora na fé, esperança e caridade através de uma oração simples e bela: «Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-Vos; peço-Vos perdão para os que não crêem, não adoram, não esperam e não Vos amam».


Na segunda aparição suscita o espírito de sacrifício através do sacrifício quotidiano.

E na última, explícita e concretiza o espírito de adoração sacrificial numa dimensão trinitária e eucarística, através da oração e da comunhão, conferindo-lhe uma finalidade reparadora.  A oração do Anjo é  extremamente iluminante:


«Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, eu Vos adoro
profundamente e ofereço-Vos o preciosíssimo Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo, presente em todos os sacrários da terra, em reparação dos ultrajes, sacrifícios e indiferenças com que Ele mesmo é ofendido. E pelos méritos infinitos do Seu Santíssimo Coração e do Coração Imaculado de Maria, peço-Vos a conversão dos pobres pecadores.»


Já na primeira aparição de Nossa Senhora, a 13 de Maio, quando a graça de Deus lhes é revelada e comunicada sob a forma de «Luz tão intensa..., que penetrando-nos no peito e no mais íntimo da alma fazendo-nos ver a nós mesmos em Deus que era essa luz», os videntes rezaram intimamente:
«Santíssima Trindade, eu Vos adoro. Meu Deus, eu Vos amo no Santíssimo Sacramento».


Por fim, temos a última aparição em Tuy. Qual abóbada, remata e sintetiza toda a mensagem nessa visão deslumbrante que compendia num só e único olhar o mistério da Trindade, o sacrifício redentor da Cruz, o sacrifício eucarístico e a presença e participação singular de Maria sob a cruz, com o Seu Coração Imaculado em todo este mistério da salvação do mundo:


«Eu tinha pedido e obtido licença das minhas Superioras e Confessor para fazer a Hora-Santa das 11 à meia-noite, de quintas para sextas-feiras.
Estando uma noite só, ajoelhei-me entre a balaustrada, no meio da capela, a rezar, prostrada, as Orações do Anjo. Sentindo-me cansada, ergui-me e continuei a rezá-las com os braços em cruz. A única luz era a da lâmpada. De repente iluminou-se toda a Capela com uma luz sobrenatural e sobre o Altar apareceu uma Cruz de luz que chegava até ao tecto. Em uma luz mais clara via-se, na parte superior da cruz, uma face de homem com corpo até à cinta, sobre o peito uma pomba também de luz e, pregado na cruz, o corpo de outro homem. Um pouco abaixo da cinta, suspenso no ar, via-se um cálix e uma hóstia grande, sobre a qual caíam algumas gotas de sangue que corriam pelas faces do Crucifi­cado e duma ferida do peito. Escorregando pela Hóstia, essas gotas caíam dentro do Cálix. Sob o braço direito da cruz estava Nossa Senhora («era Nossa Senhora de Fátima com o Seu Imaculado Coração... na mão esquerda, ... sem espada, nem rosas, mas com uma Coroa de espinhos e chamas...»), com o Seu Imaculado Coração na mão... Sob o braço esquerdo, umas letras grandes, como se fossem de água cristalina que corresse para cima do Altar, formavam estas palavras: «Graça e Miseri­córdia».


Compreendi que me era mostrado o mistério da Santíssima Trindade e recebi luzes sobre este mistério que não me é permi­tido revelar».

É interessante notar como esta representação da Trindade na Cruz é chamada na iconografia cristã "Trono da Graça", pela evocação da passagem de Heb 4, 14-16: «Tendo portanto um Sacerdote eminente que penetrou nos céus, Jesus, o Filho de Deus, conservemos firme a confissão de fé. De facto, não temos um Sumo-sacerdote incapaz de compadecer-se das nossas fraquezas, pois Ele foi provado em tudo como nós, excepto no pecado. Vamos pois confiantes ao trono da graça, a fim de alcançar misericórdia e encontrar graça para ser ajudados em tempo oportuno». E como não evocar ainda, por associação, o prólogo de São João onde nos apresenta o Verbo Encarnado como «O Filho Unigénito do Pai, cheio de graça e de verdade», isto é, de amor misericordioso e fiel, de «cuja plenitude todos nós recebemos graças sobre graças» (Jo 1, 14-16)?


Além disso, a arte iconográfica exprimiu por vezes este mistério com mais profundidade e finura do que certas teologias académicas. Tal acontece na tradição iconográfica do Ocidente, quando apresenta e representa como que numa estética teológica o mistério trinitário no madeiro da Cruz. É como uma síntese plástica desta teologia: o Pai que entrega o Filho para ser solidário com os homens, e sofre na dor do seu amor; o Filho que se entrega a si próprio totalmente pela multidão dos irmãos; a pomba do Espírito de Amor que sustenta o Filho na sua entrega e que, por sua vez, é entregue pelo Filho à humanidade como dom do seu amor sofredor.

É este mistério de amor que celebramos na Eucaristia.



Conclusão

Graça e Misericórdia, Graça do Amor misericordioso - é esta portanto a síntese da mensagem de Fátima e da revelação do Deus compassivo que, no Seu Amor Trinitário, se inclina sobre todos os sofrimentos humanos, sobre a humanidade para fazer-lhe sentir toda a Sua ternura, para Se manifestar como Pai amoroso de toda a criatura.


Compreendemos então como o Papa Wojtyla, recordando o octogésimo aniversário das aparições de Fátima, escrevia, numa mensagem ao bispo local:

«Às portas do Terceiro Milénio, observando os sinais dos tempos neste século XX, Fátima conta-se certamente entre os maiores, até porque anuncia na sua Mensagem muitos dos sinais sucessivos e convida a viver os seus apelos; sinais como as duas guerras mundiais, mas também grandes assembleias de Nações e Povos sob o signo do diálogo e da paz; a opressão e as convulsões vividas por diversos países e povos, mas também a voz e a vez dadas a populações e gentes que entretanto se levantaram na arena internacional; as crises, as deserções e tantos sofrimentos dos membros da Igreja mas também um renovado e intenso sentido de solidariedade e de recíproca dependência no Corpo Místico de Cristo, que se vai consolidando em todos os baptizados...;

o afastamento e abandono de Deus da parte de indivíduos e sociedades, mas também uma irrupção do Espírito de Verdade nos corações e nas comunidades tendo-se chegado à imolação e ao martírio para salvar a "imagem e semelhança de Deus no homem" (Gn 1,27), para salvar o homem do homem.


De entre estes e outros sinais dos tempos, como dizia, sobressai Fátima, que nos ajuda a ver a mão de Deus, guia providente e Pai paciente e compassivo também deste século XX».


À luz destas chaves hermenêuticas, Fátima apresenta-se como um sinal de Deus para a nossa geração, uma palavra profética para o nosso tempo, uma intervenção divina na história humana mediante o rosto materno de Maria.


Quando Maria se move para uma missão recebida de Deus, nunca é por algo de pouca importância ou por questões marginais, já que se trata sempre do grave problema da sorte (destino) do mundo e da salvação dos homens.


Pensando bem, portanto, as coordenadas da mensagem de Fátima são amplas e contêm teologicamente uma profecia à luz da escatologia. «A profecia, no sentido bíblico do termo, não significa predizer o futuro, mas sim aplicar a vontade de Deus ao tempo presente, e por conseguinte, indicar o caminho recto do futuro».


Por outro lado, as vicissitudes da humanidade e da Igreja devem ser submetidas ao critério escatológico ou do fim último. Somente abrindo os horizontes sobre a eternidade e proclamando a esperança teologal é possível iluminar o sentido da história aberta ao futuro de Deus e opor-se ao mal que ameaça a humanidade. Neste sentido, na mensagem de Fátima a premonição do "juízo" que impende sobre o mundo como possibilidade de auto-destruição infernal, isto é de acabar reduzido a cinzas, é anunciada juntamente com a esperança de vencer o mal a partir da nossa conversão a Deus. A mensagem de Fátima é portanto advertência e, ao mesmo tempo consolação da esperança teologal: o mal é vencido pelo amor trinitário revelado na cruz e ressurreição de Jesus, e pelo amor de Maria por nós.

 

 

 

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