|
NOTA PASTORAL DO NOSSO BISPO DO PORTO
NA ABERTURA DO ANO SACERDOTAL: DE DEUS PARA
DEUS, NO SACERDÓCIO DE CRISTO
O Ano Sacerdotal em boa hora indicado pelo
Papa Bento XVI, tem toda a oportunidade e urgência. Urgente como tudo o que é
cristão, da Igreja para o mundo. A começar por essa qualidade mesma de ser
"cristão", perpetuando no tempo e no espaço o que Jesus viveu e agora nos
oferece, pela força do Espírito que partilha com o Pai e connosco. Oportunidade
para reflectirmos sobre o sentido sacerdotal da existência e o sacerdócio
ministerial na Igreja.
1.
O mundo que Deus nos oferece
Precisa a Igreja de ser de Deus, e por isso mesmo "sacerdotal". Como Bento XVI
tem acentuado desde a inauguração do seu pontificado, a realidade absoluta de
Deus, face à relatividade de tudo o mais, deve ser evidenciada e aprofundada
por aqueles que nessa mesma realidade se sustentam.
A secularidade - também chamada laicidade - é positiva e conveniente para
todos. De algum modo afirmada por Jesus, quando distinguiu o que devemos a
César do que devemos a Deus, não os opondo nem confundindo, significa
basicamente que as realidades temporais têm consistência específica, que deve
ser respeitada como verdade da criação e disposição divina das coisas. Em
Jesus, cuja filiação divina é essencial e eterna, não foi circunstancial o
facto de viver como homem entre os homens, crescer e trabalhar na oficina de
Nazaré, respeitar a autoridade judicial e política, pagar tributo e observar as
regras da convivência de então, ainda que lhes desse o sentido mais cabal.
Na verdade, em tudo isso reconheceu e consolidou a sociabilidade básica e comum
em que coexistimos como seres humanos. Mais ainda, elogiando nas suas parábolas
as boas práticas de trabalho agrícola ou gestão económica, assim como os bons
exercícios de solidariedade e delicadeza, mesmo para além da confessionalidade
estrita, deixou-nos a indicação claríssima de que há um espaço geral de
convivência e engenho em que coexistimos todos como seres humanos. Reconhecê-lo
teórica e praticamente não é outra coisa senão concluir do Evangelho a própria
verdade temporal do mundo. Por isso os cristãos se inserem na sociedade em
cidadania plena, com crentes e não crentes; por isso os cristãos respeitam o
Estado como primeiro agente do bem comum da colectividade inteira; por isso os
cristãos têm toda a incumbência e razão de sobra para estarem na primeira linha
de tudo quanto contribua para o desenvolvimento, a justiça e a paz,
especialmente quando se sintam particulares dificuldades em qualquer destes
domínios essenciais.
2.
Um mundo para oferecermos a Deus
Mas de Jesus recebemos outras luzes mais. Sobretudo as que nos ilustram quanto
ao princípio e à finalidade da vida pessoal e colectiva, o significado que
todas as coisas hão-de alcançar, por mais comezinhas que pareçam, como são
vividas no dia a dia, entre alegrias e revezes.
Jesus, que se afirma e manifesta como Filho de Deus, vive cada momento em
acolhimento e retribuição de si mesmo em relação Àquele de quem provém e a quem
se oferece, chamando-lhe precisamente "Pai". É assim que logo aos doze anos
lembra a Maria e a José que o seu lugar é a "casa do Pai"; e é assim que,
também segundo S. Lucas, conclui a sua vida terrena entregando o espírito "nas
mãos do Pai". Entretanto, da oficina à sinagoga, da Galileia ao Gólgota, nada
fizera ou dissera que não tivesse o Pai como referência, retribuindo também
humanamente, por si e por nós, a vida d'Ele recebida.
Jesus inaugurou deste modo um sacerdócio novo, que já não oferece a Deus Pai
coisas exteriores, mas a sua própria vida, recebida e devolvida em acção de
graças. E ensina-nos a viver exactamente assim, consagrando ao Pai, com Cristo
e no amor do Espírito, tudo quanto d'Ele recebemos, começando por nós próprios:
passado, presente e futuro, num movimento único e unificador que a tudo dê
sentido como oferta e eternidade como ultra-dimensão.
Por isso também, o Espírito de Cristo, baptismalmente recebido, faz-nos n'Ele
filhos de Deus e sacerdotes do Pai. Nasce assim e expande-se pelas gerações um
"Povo sacerdotal", no sacerdócio comum de todos os baptizados, alargando, nas
famílias e na sociedade, a oferta de Cristo ao Pai, por si, por todos, pelo
mundo inteiro. Daqui que a secularidade - como reconhecimento da justa
autonomia das realidades temporais - não deva fechar-se sobre si mesma, como se
tentasse esgotar em coisas efémeras o excesso de alma que em todos nós apela
por mais, muito mais. Politica e culturalmente, tal auto-encerramento da
esperança tem o nome de secularismo ou laicismo e é exactamente o contrário da
dimensão sacerdotal da existência, como a ganhamos de Jesus Cristo, que tudo
cumpria na terra para tudo oferecer ao Céu, redimindo e salvando a humanidade e
o mundo de tanta resistência acumulada.
A proposta cristã, como Jesus a vive e no-la oferece, nem está na fuga do
mundo, que Deus nos confia a todos como campo de cultivo, nem no encerramento
nele, porque, ao fim e ao cabo, só de promessa se trata: é terra, mas terra de
promessa. Havemos de viver o dia a dia e as responsabilidades pessoais ou
comuns como quem desvenda e desdobra a criação, acresce e alarga a partilha do
bem comum universal. E fazendo tudo isto com um sentido profundamente religioso
e sacerdotal, devolvendo ao Pai, qual talento investido e aumentado, tudo
quanto Ele mesmo nos semeou na inteligência e no coração.
3.
O sacerdócio de Cristo presente nos nossos padres
Acontece, porém, que Jesus Cristo não se ficou por nos falar destas coisas, ou
indicá-las por recomendação e teoria. Como atrás se disse, viveu-as
radicalmente assim, fazendo da sua existência um altar, da sua vida uma oblação
e de si mesmo um sacerdócio novo e eterno, devolvendo ao Pai a humanidade em
que incarnou. Na sua oferta (sacrifício) recuperamos a vida, a seiva e o
sentido: assim o celebramos na Eucaristia, em que o Povo sacerdotal, em torno
do ministro sagrado que lhe visibiliza a presença de Cristo sacerdote, se
retribui ao Pai na união do Espírito, aí recebendo alento para amar e salvar o
mundo.
E é este mesmo realismo sacramental que continua a vida de Cristo na vida da
Igreja, designadamente através daqueles que, pelo sacramento da Ordem, trazem a
cada tempo e lugar a exemplificação viva do que Cristo sacerdotalmente fez por
todos, por todos se oferecendo. Ou seja, pelo sacramento da Ordem (nos graus do
episcopado e do presbiterado, "sacerdotais" em sentido estrito), Cristo
sacerdote quer manifestar-se em cada ministro sagrado, para chamar todo o Povo
de Deus a oferecer-se também ao Pai, em acção de graças e consagração do mundo,
nas suas mais diversas vivências e responsabilidades, da família à profissão, à
sociedade e à cultura.
Neste ano sacerdotal, somos chamados a avivar e aprofundar estas verdades
fundamentais e constitutivas da vida da Igreja e do seu serviço ao mundo. Pelo
particular desenvolvimento histórico do nosso sacerdócio ministerial, católico
e latino, cada padre é chamado a ser sinal vivo de Cristo sacerdote no meio dos
seus. Obediente ao Pai, porque da vontade do Pai se alimenta: celibatário, pois
tudo nele se sublima na dedicação imediata à grande família dos filhos de Deus;
desprendido de bens e amarras, pois vive do único necessário que por fim nos
saciará a todos: cada sacerdote é um dom imenso, oferecido por Deus a uma
Igreja que não poderá resumir-se a mera instituição humana, benemérita que
fosse. Igreja que promete e ganha pela graça de Cristo sacerdote aquela
dimensão total que define a verdadeira filiação divina.
4.
Rezando pelos sacerdotes e pelas vocações sacerdotais
Neste ano sacerdotal agradecemos a Deus tamanho dom. E do modo mais concreto,
comunidade a comunidade, rezando por todos e cada um dos nossos sacerdotes,
para que se sintam felizes e pascalmente realizados no exercício do seu
ministério, entre tantas dificuldades que lhes advêm de serem poucos e não lhes
faltarem múltiplos trabalhos, sobrecarregados tantos pelo peso da idade e da
pouca saúde. Particularmente assim e pela grande generosidade que manifestam,
são sinais vivos de Cristo sacerdote, que intercede por todos; são sinais vivos
de Cristo pastor, que dá a vida pelas suas ovelhas. Mas precisamente aí,
precisam da oração, da estima e da colaboração de muitos cristãos que os
acompanhem.
Neste ano sacerdotal - continuando o que vimos fazendo na cadeia de oração
"Rogai", que tão boa correspondência tem encontrado na generalidade das nossas
comunidades paroquiais e religiosas - cresceremos na oração instante pelas
vocações sacerdotais, para que o apelo vocacional de Cristo seja ouvido por
muitos jovens e adultos disponíveis, que assim encontrem o maior sentido para
as suas vidas e a mais bela aplicação da sua generosidade.
Apesar das dificuldades reconhecidas, a nossa Diocese vai, a pouco e pouco,
aumentando o número de candidatos ao sacerdócio ministerial. O trabalho dos
nossos Seminários (Sé, Bom Pastor e Redemptoris Mater), do Pré-Seminário e do
Secretariado Diocesano da Pastoral das Vocações, vai dando os seus frutos.
Desde 2007 ordenei apenas um padre secular - deixando entretanto de contar com
mais de uma dezena, por morte ou outras causas -, mas proximamente terei a
alegria de ordenar mais três. Nos próximos anos contaremos previsivelmente com
menos padres, dada a alta média etária do presbitério. Depois, a pouco e pouco,
se a oração e o trabalho vocacional de todos forem avante, cresceremos em
número, nas condições novas do tempo e da pastoral que se impõe. Daqui a dois
anos poderemos começar a contar com mais diáconos permanentes, os quais, com a
contribuição específica do seu ministério ordenado, permitirão aos sacerdotes
aplicarem-se com mais disponibilidade ao que lhes é próprio e definidor,
sobretudo no acompanhamento espiritual das comunidades, em torno da Palavra, da
Eucaristia, da Reconciliação e do acolhimento, retomando o exemplo de São João
Maria Vianney, o Santo Cura d'Ars, em quem este ano sacerdotal se inspira.
5.
Rumo à Missão 2010
Aproximamo-nos da "Missão 2010", tempo largo e pleno para que a Diocese do
Porto e cada uma das suas comunidades se apliquem sobremaneira no anúncio evangélico,
com "novo ardor, novos métodos e novas expressões", como João Paulo II indicava
para a "nova evangelização". Será certamente ocasião para nos redescobrirmos
como Igreja, cuja verdadeira natureza é evangelizadora e missionária,
valorizando todas as potencialidades carismáticas e ministeriais com que o
Espírito de Cristo a habilita e envia. A geral dimensão sacerdotal, activada
pelos nossos padres em cada comunidade, como sacramentos vivos de Cristo
sacerdote, devolver-nos-á ainda mais ao Pai, em acção de graças por tudo e
intercessão geral por todos. Mas também nos reenviará ainda mais ao mundo, para
que nenhuma aspiração legítima dos homens, nenhuma tarefa urgente da sociedade,
nenhum clamor dos pobres de todas as pobrezas deixem de encontrar nos cristãos
o acolhimento solidário do seu sacerdócio comum, que tudo apresenta ao Pai,
d'Ele recebendo o estímulo para a tudo responder no mundo. A isso os
incentivará decisivamente o sacerdócio ministerial dos seus padres, assinalando
em cada comunidade a presença viva e vivificante de Cristo sacerdote e pastor.
Porto, 19 de Junho de 2009
Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, abertura do Ano Sacerdotal
+ Manuel Clemente, Bispo do Porto
|